No outro dia decidi, à ultima hora, ir a Lisboa ver as luzes com duas amigas e, durante o nosso passeio, deparamos-nos com este cartoon da autoria de DaCosta, cujo instagram é @dacostaworld.
É bastante irónica a forma como eu e as minhas amigas estávamos a usufruir do nosso privilégio que é poder passear pela rua livremente, sem nos preocuparmos com nada. Estávamos a viver um momento feliz ao lado umas das outras, a falar e a contemplar a magia da nossa bonita cidade. E, de repente, deparamos-nos com este cartoon sobre a guerra e a forma como há pessoas que não têm as mesmas oportunidades que nós, e não podem simplesmente decidir à ultima hora ir passear pela rua e,talvez, nem sequer pensam nessa possibilidade, pelo facto de estarem tão habituados a viver encarcerados e com medo.
Neste cartoon, podemos ver, do lado esquerdo, uma figura de uma criança a agarrar uma carta para o pai natal, algo que todas as crianças costumam fazer e que faz parte da magia que é a época natalícia. Contudo, há algo que distingue esta carta destinada ao homem de barbas brancas que realiza os desejos dos mais novos:
Não estão a ser pedidos brinquedos nem nada material, a criança apenas está a pedir igualdade, paz e amor, apenas isso. A criança está a pedir uma oportunidade para ser livre, ter direitos, viver em paz e estar rodeada de amor, algo que a maioria de nós vê como garantido.
Ao lado desta figura, está representada outra criança sentada no chão e a pensar em comida, pois, provavelmente já não come há vários dias. Na sua mão tem uma granada, que acredito ser uma forma de representar a situação de guerra pela qual o seu país está a passar.
Mais atrás desta figura, podemos ver um pai natal com a mão no ar a tirar uma selfie. Por cima da sua cabeça está a representação do algoritmo do Instagram: likes, comentários e visualizações. É bastante irónico, pois este pai natal (metáfora do ser humano da sociedade atual) parece estar apenas a mostrar que é uma pessoa muito preocupada com as causas humanitárias, tirando fotos ao que se está a passar a sua volta, como se estivesse a fazer alguma coisa para acabar com a situação que está à sua volta. Mas, no fundo, apenas está a mostrar ser uma pessoa que não e: alguém que ajuda muito os outros e se preocupa. Há algo de errado, pois, enquanto está tudo um caos à sua volta, ele apenas se preocupa em tirar fotos, não ajuda, apenas quer mostrar ser alguém bom.
Por baixo desta figura vemos a palavra Hipocrisia em letras maiúsculas, que é exatamente aquilo que descreve a sociedade dos dias de hoje: tão preocupados com o estado do mundo nas redes sociais, mas mexer o corpo para fazer a diferença na vida de alguém tá quieto.
Este cartoon deixou-me pensativa, pelo facto de representar exatamente a sociedade moderna e por mostrar aquilo que move o ser humano dos dias de hoje: as views e os likes nas redes sociais, e a enorme necessidade de provar ao mundo que somos alguém que, muitas vezes, não somos. Existe uma sede tão grande para mostrar que somos boas pessoas, pessoas que se preocupam com os outros e são extremamente altruístas. Mas, na maioria das vezes, não passa disso: uma necessidade gigante de obter a aprovação dos outros.
Quando eu e as minhas amigas nos deparámos com este cartoon, pensámos, inicialmente, que seria algo com uma mensagem esperançosa, mas, quando começámos a ler e a observar com atenção percebemos que era algo representativo da realidade, algo que não podia ser mais real.
Nós estávamos a passar bons momentos, a viver e a respirar ar puro.
As crianças que vivem em guerra não o podem fazer. Não podem ser como nós, nem viver “livremente” como nós. Não podem decidir à ultima hora ir passear para o centro da sua cidade, pois, a meio do caminho podem ser abatidas.
Este cartoon deixou-me pensativa e fez-me questionar tudo aquilo que eu sou. Fez me também ver a sorte que tenho em viver num país que não foi contaminado pela guerra.
Muitas vezes queixamos-nos da nossa vida, ficamos tristes por não conseguirmos obter certos bens materiais, mas a verdade é que temos sorte, mesmo muita sorte em poder aproveitar momentos simples como ir passear pela nossa cidade.
Leonor Belo Graça

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