Numa das primeiras aulas de Literaturas Marginais, falámos sobre como não vemos a realidade, mas apenas a relação que temos com a mesma: aquilo que sonhamos, tememos, projetamos. Talvez seja por essa razão que, ao regressar a casa, a minha realidade voltou a assumir a criança que fui, e que muitas das vezes ainda me sinto. Acredito que seja um sentimento presente em muitos de nós e, como tal, partilho convosco este texto que escrevi sobre essa exata aproximação à minha criança interior: Esta noite, deitei-me no mesmo quarto onde, em criança, adormecia com a cabeça repleta de sonhos e receios. Pedia à minha mãe que me deixasse dormir agarrada a ela, temendo os “monstros do escuro”, que pareciam conhecer o caminho desde a rua até à minha almofada, como se lhes pertencesse. Tanto desejei crescer, ser grande, ser uma Matilde livre. Mas mal sabia eu que os verdadeiros monstros não moravam no escuro. Permanecem. Crescem connosco. Mudam de rosto, de voz, de pele, mas nunca de intenção. O...