Numa das primeiras aulas de Literaturas Marginais, falámos sobre como não vemos a realidade, mas apenas a relação que temos com a mesma: aquilo que sonhamos, tememos, projetamos. Talvez seja por essa razão que, ao regressar a casa, a minha realidade voltou a assumir a criança que fui, e que muitas das vezes ainda me sinto. Acredito que seja um sentimento presente em muitos de nós e, como tal, partilho convosco este texto que escrevi sobre essa exata aproximação à minha criança interior:
Esta noite, deitei-me no mesmo quarto onde, em criança, adormecia com a cabeça repleta de sonhos e receios. Pedia à minha mãe que me deixasse dormir agarrada a ela, temendo os “monstros do escuro”, que pareciam conhecer o caminho desde a rua até à minha almofada, como se lhes pertencesse.
Tanto desejei crescer, ser grande, ser uma Matilde livre. Mas mal sabia eu que os verdadeiros monstros não moravam no escuro.
Permanecem. Crescem connosco. Mudam de rosto, de voz, de pele, mas nunca de intenção. Ou, pior ainda, continuam, noite após noite, a esconder-se na sombra do que somos, impedindo-nos de dormir em paz.
Ah… que desejo ingénuo, o meu, de querer crescer. Inevitavelmente, crescemos. Talvez sem coragem, ou, até mesmo, sem o direito de perguntar à infância se ela queria mesmo partir.
Fui deixando pedaços de mim em cada margem. Fui calando vontades internas para caber em moldes estreitos. Entreguei-me a um mundo que exige tudo de nós, até mesmo o que nunca estaremos prontos para oferecer.
Sigo “crescida”, ou, pelo menos, a parecer. Mas a pequena Matilde ainda vive em mim. E grita, em segredo, no escuro: “Deixa-me dormir agarrada, nem que seja só por esta noite, porque os monstros ainda existem…”
Matilde Leandro
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