Enquanto estou sentada na minha cama a escrever este poema, há uma rapariga com a mesma idade que eu, com gostos parecidos aos meus e com uma vontade enorme de viver a vida ao máximo, que está escondida algures para se proteger de uma guerra que nunca pediu para acontecer.
Enquanto eu vivo numa casa segura, onde nunca me falta nada, ela (sobre)vive a ouvir mísseis passar e a pensar quando chegará a vez dela ser atingida por um, tal como aconteceu a inúmeras pessoas que lhe eram queridas.
Enquanto eu saio e convivo com os meus amigos, ela chora por não poder estar com os dela.
Chora por nem sequer ter notícias deles.
Chora porque existe uma maior probabilidade de eles estarem soterrados do que a respirar.
Enquanto eu me queixo da quantidade de trabalhos que tenho para entregar, ela já nem se lembra da última vez que foi à escola.
Já não se lembra da última vez que teve o privilégio de se queixar do mesmo que eu.
Enquanto eu me preocupo com futilidades, ela só deseja ter segurança.
Ela só pede um ambiente seguro, só isso (algo que para mim é normal).
Enquanto ela se esconde, eu saio à rua sem medos.
Enquanto ela ouve mísseis passar, eu nem sequer penso nisso.
Enquanto ela pensa nos seus amigos, eu estou com os meus.
Enquanto ela pensa nos seus dias de escola, eu reclamo da quantidade de estudo que tenho acumulado.
Enquanto ela deseja ter segurança, eu preocupo-me com coisas frívolas.
Enquanto ela sobrevive, eu vivo.
Nascidas em sítios diferentes
Separadas geograficamente, mas com gostos parecidos e, apenas pelo facto de uma ter nascido num território destinado à guerra, sofrerá para o resto da vida por algo que não se escolhe.
Uma teve sorte, a outra não.
Porquê?
Leonor Belo Graça
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