É muito bonito, sim, reconhecer a agência e potencial das margens. Esplêndido! Importante, até.
Não o devemos, porém, fazer à custa da sua romantização. Pela minha leitura, foi isso que O Sacristão fez. Pintou o analfabetismo mais como um trunfo do que um obstáculo. Pintou o analfabetismo de força, motor que faz do pobre rico.
Afinal, para que servem as escolas? Os livros? As letras?
Vê-se n’O Sacristão um substrato cujas realidades experienciamos na atualidade ̶ por um lado, a desvalorização do ensino pelo primado do olho para o negócio; por outro, a sobrevalorização da meritocracia isolada e atómica, elevada acima de qualquer irrelevante estrutura socioeconómica.
Viva os empreendedores! Viva a casta superior!
Esta corrente de pensamentos levou-me a um vídeo onde a atual Ministra do Trabalho (política inspiradora de quem tanto gosto) fala da nossa ampla classe marginal ̶ os jovens! E devo dizer que nunca alguém me representou tão bem, ponto. Nunca alguém interpretou tão sinceramente a essência dos desejos de toda uma geração! NUNCA ALGUÉM-
Epa, que parvoíce.
Deixo-vos o vídeo para que possam descobrir, pela boca da Ministra, que não querem estabilidade nem empregos para vida. Que bons salários e estabilidade são uma dicotomia sem saída. E, claro, que a Ministra é uma falsificadora que vende carvão como diamantes, ou, coloquialmente, uma vigarista.
É-me sempre delicioso assistir à romantização política das condições precárias a que nos sujeitam. Ahhhhhh eles gostam tanto de flexibilidade e novas experiências. Ahhhhhhhhhhhhh eles gostam tanto de estar sempre a mudar. Ahhhhhhhhhhhhhhhh espíritos livres, não querem estabilidade, amigos, família, nem de casa precisam! Semáforo verde, anda, vermelho, para, verde, anda, vermelho, para, verde, anda, vermelho, morre.
Faltou-lhe acrescentar:
“Os pobres são tão divertidos.”
Mas é só uma sugestão. Não lhe quero borrar a pintura.
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