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Capicua lê Astérix

 Por Toutatis! Chegou às livrarias a tão desejada aventura de Astérix na Lusitânia e eu fui a correr comprá-la. Já era proprietária de uma edição do Astérix traduzida para mirandês (idioma da aldeia da minha família paterna), estrela da minha vasta coleção, e há muito esperava por uma edição passada por terras lusas. Fiquei feliz!

Como esperado, a ironia com que se evocam os clichés locais (do elétrico XXVIII, aos azulejos, dos pastéis de nata ao vinho verde) é cirúrgica e não se esperava menos do que isso desde "Astérix na Córsega", que se não é um tratado de antropologia parece o resultado de um longo trabalho etnográfico. Ora, se os corsos são duros e dignos (e quem foi à Córsega facilmente o constata), os lusitanos são retratados com sendo melancólicos e hospitaleiros. Além de que não é só Obélix que está sempre a pensar em comida, os lusitanos também (ainda que seja mais em bacalhau do que em javali) e isso também está nesta aventura.

Quem já deu gargalhadas altas a ler os quadradinhos de Goscinny e Uderzo sabe que a melhor parte, além das fúrias do doce e cândido Obélix (por ciúme ou por insinuações acerca do seu sobrepeso), é a obtusa estupidez dos soldados romanos. Mas nesta história, o que mais me divertiu foram os achaques de melancolia que a entoação de alguns fados provocava nos romanos, pois, como uma arma contra o exército invasor, fazia com que ficassem nostálgicos, citando Pessoa ou com vontade de "passear à chuva com um cão cego". De assinalar é também o momento em que o próprio Obélix canta o fado para se fazer passar por lusitano, apesar do seu estranhamento confesso diante da nossa bizarra tendência para a tristeza.

Gostava, porém, que a aventura não fosse passada apenas em Olissipo e na aldeia de Zépovinhum, porque tenho a certeza que os gauleses seriam muito felizes em Portus Calem, onde poderiam comer "gaulesinhas" e ver como as mulheres são tão bravas, que até parece que tomam poção mágica. Acho que o vernáculo local também seria fortemente apreciado pela dupla de gauleses, habituados que estão às zaragatas da sua terra natal e ao mau feitio dos seus conterrâneos, não estranhariam com certeza o ambiente do mercado do Bolhão, ou o espírito rabugento do nosso povo carismático. De qualquer forma, foi uma bela incursão por terras de Viriato, com direito a menir de calçada portuguesa, a paixoneta por uma moça chamada Saudade e à evocação tanto dos traidores, como dos resistentes à ocupação romana. Oxalá algum do espírito irredutível dos gauleses tenha ficado por cá e que a dupla possa levar também alguma da nossa nostalgia, para que sintam muitas saudades e queiram voltar em breve.

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