Apenas contadores de histórias
A justiça de por à prova o que está à
primeira vista
Uma hora e quarenta minutos; movimentação incessante; constante
alteração da velocidade e tom da voz; enorme rapidez de raciocínio; ainda maior
carga emotiva. Este foi o ambiente de palco que a atriz portuguesa Margarida
Vila Nova instalou com a sua performance do monólogo que constitui a renomada peça
Prima Facie. Apesar de recente é já incomparável o sucesso deste contemporâneo
texto dramático, desde marcar presença nos grandes palcos da Broadway e do West
End, até correr o mundo em digressões internacionais. À experiência que a mim
me toca, tive de batalhar com resiliência contra a elevada demanda por esta
peça que rapidamente ganhou reputação como uma das melhores em cena no nosso
país, tanto que só na terceira leva de datas consegui bilhete e mesmo para o
último dia em palco. Foi tamanha a delonga que só na véspera me relembrei
daquela que ainda não sabia vir a ser uma fenomenal noite de teatro.
Saí da sala brutamente abalado pela força do texto e da sua
interpretação, não porque a trajetória da narrativa tenha sido imprevisível, mas
sim pela crueza visceral de cada palavra ao longo de toda a variação emotiva do
monólogo. A personagem é Tereza, uma advogada de defesa especializada em casos
de assédio e violação sexual com uma postura fria, indiferente e calculista no
exercício da sua advocacia, que indica desde logo alguém demasiado confortável
com a altivez do seu prestígio. Como tal, tanto maior a queda, quando numa
súbita reviravolta a nossa protagonista se junta à tragédia das vítimas que a
sua competência profissional se reputou em descredibilizar. Nesse sentido, o
texto visa provocar um breve sentimento de retribuição pelo desserviço prestado
por esta advogada a tantas mulheres, mas não sem acabar por redobrar a empatia
para com a sua dor, não só física e psicologicamente traumática como também
existencial por colocar em causa todo o seu legado assente numa injustiça que
agora a atingia. Após uma carreira a refinar a eficácia de estratégias utilizadas
com o intuito de atacar a veracidade de episódios de assédio e violação, além
de ignorar o facto de os agressores a usarem enquanto mulher para branquear os
seus crimes, esta advogada vê-se agora a reviver na pele o pesadelo do
escrutínio que tantas vezes infligira e como a pertença ao género feminino é
uma fragilidade maior do que lhe fora provado até então.
O empoderamento de conseguir vingar num mercado de trabalho
particularmente misógino, a admiração e quase temor que os colegas sentiam de
si, o contraste do seu sucesso com a mediocridade das suas origens e ainda a
adrenalina de ver a sala de audiências como um campo de batalha, foram todas
sensações que contribuíram para a cega confiança desta advogada na justiça do
sistema. Afinal como é que algo que tanto lhe dera poderia ser injusto, é o
seguir de um raciocínio que tantos imitam ao recusar admitir as falhas
sistémicas que os favorecem à custa do prejuízo de outros. Teresa padece dessa
alienação, convencendo-se que não é possível encontrar um sistema que melhor se
aproxime da verdade e que apenas a versão jurídica que a lei constrói a partir
de evidencias pode ser uma resolução válida. É revoltante e perturbador o
cinismo de afirmar que “um advogado é apenas um contador de histórias” e posto
isso que ganhe a melhor narrativa. Todavia, face ao retrato que tantas vezes os
media, arte, literatura e a própria experiência real fazem do processo
judicial, torna-se difícil negar que existe menos preocupação com a vítima para
a qual se procura justiça, do que com a lei penal. Fará sentido que esse código
criado ao serviço do povo, em lugar de constituir o conjunto de regras e
princípios às quais recorrer para encontrar justiça, se torne uma estrutura
inflexível perante a qual os interessados se reduzem a um elemento numa
engrenagem processual?
Acredito que a impressão que se tem da relevância diminuta
dos réus não é falaciosa, pelo contrário, é o resultado expectável de um
sistema de justiça com uma metodologia demasiado científica que duvida em
absoluto da veracidade de primeiras impressões, colocando minuciosamente à
prova todos os pormenores de um caso. Sacrificar a pureza da primeira face dos
eventos é desculpado com variados pretextos, mas o que esta peça nos indica é
que essa opção tende a desvalorizar a relevância das emoções no momento de
averiguar os factos. Circunscrevendo a discussão aos casos de assédio e
violação sexual que o monólogo discute, questiono-me se é legitimo exigir
consistência e coerência do relato de uma vítima, quando se sabe que aquilo
porque passou, inevitavelmente impactará a sua memória, raciocínio, senso de
segurança e consequentemente o seu testemunho. Não é possível afirmar que se
procura justiça para estas vítimas ao subtrair da consideração legal o estado
frágil e desequilibrado em que se encontram.
Não digo que emoções e impressões devam ser elevadas ao nível
de factos concretos, pois fazê-lo inundaria as salas de audiência de uma
subjetividade caótica, mas assumir que não existem verdades, também devia ser
razão suficiente para duvidar da lei como enquadramento infalível de histórias
reais. Por vezes a legalidade não é maleável o suficiente para incluir a nuance
no seu veredicto final, mas o que se não a nuance é mais crucial na análise de
um crime cometido com uma frequência que indica precisamente o quanto a
sociedade ainda olhe para estas histórias com desconfiança, ambiguidade e
descrédito. Para tragédia de uma em cada três mulheres, mas também para as
restantes duas que vivem com medo da eventualidade de serem assediadas ou
violadas, este ainda é um risco de alta incidência. Acaso sejam um dia a
misoginia e machismo sistematizados severamente condenados, poder-se-á então
esperar que o sistema de justiça se mantenha imune da perversa mentalidade que objetifica
a experiência feminina. Só assim se poderá dar o valor devido à prima facie do
abuso sexual.
João Conde, novembro de 2025
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